Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Dois haikais para Marana Borges

o tempo é tortura
quando saudade esticada
dentro de um só peito

barranco na goela
canyon entre estrofes
o mundo partido

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Vernissage

Na palestra sobre Santo Agostinho, o professor disse, com palavras mais bonitas do que estas, o seguinte:

Há filósofos que fazem filosofia como pintores. A uma tela branca, acrescentam um axioma, uma dedução, uma demonstração etc. Depositam camadas de tinta e vão construindo sua obra. É o caso de Aristóteles, por exemplo, que parte da experiência sensível para a edificação de um saber racional.
Outros filósofos são como escultores. Michelangelo apenas trouxe à tona o Moisés que já estava na pedra, mediante a remoção dos excessos que o encobriam. O trabalho de Santo Agostinho é o de retirar o entulho que impede a escuta do conhecimento que já está na alma. A voz interior, que fala da nossa essência, está enevoada por outras vozes ruidosas, que precisam ser eliminadas pelo trabalho filosófico.

Contei para o meu amor Alexandream e ficamos brincando, pretensiosamente, de descobrir se, na vida, éramos pintores ou escultores. Chegamos a um acordo: ele é escultor e eu pintora. Isso porque ele deseja a todo custo descamar as lascas da superfície para revelar algo que sempre esteve lá escondido e que é precioso.
No processo educacional, por exemplo, ninguém ensina nada a ninguém. O professor apenas move as barreiras que atrapalham a visão do aluno sobre si mesmo. O conhecimento de si necessariamente desvela, desperta a vontade de aprender. Para Santo Agostinho, a alma não tem vontade. A alma é vontade.
Eu, segundo o meu escultor, pinto porque passo a vida investigando tintas-palavras e vou colorindo as partes do mundo que, por um acaso, estão pálidas.
Eu pinto e ele esculpe e nós dois, no final do ano, faremos uma mostra com as nossas ociosidades.

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

Ex-umbigo

Acordei mendiga. Vazio absoluto. Xícara quebrada, bule seco. De ontem, só sobrou vento. Escada apoiada em ex-memória. Ex-memória. Água que lava o terreno e enche a pegada de lama. Quando secar, história.

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Chá de camomila

Um pato, uma casa, uma fonte, o cheiro de três dias sem banho colhendo lavanda. Lindo como um desenho de fumaça e aquarela feito por um orixá. Misticismo sofisticado de não precisar de instituição. O ritual é o templo. Todos os dias ele deixa um copo d’água no banheiro para ela beber depois do banho porque refresca as tripas e os dois acariciam juntos o gato durante a novela. Dormem tranqüilos de milagre ignorado.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Divagações sobre a lei antifumo e a minha relação com o cigarro

Não fumo. Detesto cheiro de cigarro e tenho rinite alérgica – o que significa que meu nariz coça, arde e entope enquanto estou num ambiente com fumaça e, frequentemente, no dia seguinte a uma imersão em tabaco alheio, espirro centenas de vezes (sem exagero) ou milhares, dependendo da concentração.

Acontece que tenho muitos amigos muito fumantes e eu gosto muito deles, adoro estar com eles, ouvi-los, ri-los. E eles, vejo, de estar comigo, ouvir-me, rir-me. O cigarro é um problema entre nós. Eles, sabendo que eu não fumo, preocupam-se com a direção do vento e até trocam de lugar para que a fumaça desvie das minhas narinas, mas, claro, nunca é suficiente porque quem tem rinite detecta o cheiro de longe. Enfim, é sempre um impasse, motivo de negociação. Já me acostumei, faz parte da relação, como faz parte eu reclamar que meu namorado não coloca sempre a mão na minha perna quando estamos no carro. Colocar a mão ou não é uma questão secundária. Central é a negociação. É natural à nossa convivência no carro a minha reivindicação. Eu atuo o papel da que reivindica e ele o de quem prontamente atende à minha súplica carente. Se ele o fizesse sempre automaticamente, algo se transformaria entre nós.

Pois, desde a lei antifumo, algo mudou na minha relação com meus amados fumantes. É incontestável o benefício respiratório da medida. Eu os encontro e não é preciso cogitar jogar minhas roupas fora. Elas não ficam fedidas e eu não espirro descontroladamente. Mas as conversas, antes deliciosamente ininterruptas, passaram a ser entrecortadas, porque eles precisam se levantar, sair do ambiente fechado em que estamos para fumar. Tudo para garantir que os não-fumantes não tenham câncer de pulmão. E foi aí, num desses momentos solitários, que eu pensei que, diferentemente dos 88% que aprovam (segundo o DataFolha), eu não gosto dessa lei. E, como sempre que você começa a pensar muito sobre um determinado assunto esse assunto te caça aonde quer que você vá, encontrei companheiros que me ajudaram a ver como são rasos alguns argumentos do senso comum para a aprovação do cerco aos fumantes.

Jean-Louis Besson, num capítulo que contrapõe qualitativo e quantitativo em A Ilusão das estatísticas, fala que a “atual ‘carolice antitabagista’ (que se inscreve na religião da higiene) recorre, para elaborar seu catecismo, a argumentos de armazém: o custo pago pela coletividade para cuidar das doenças generosamente atribuídas ao uso do fumo. Mas ao armazeneiro, armazeneiro e meio: se admitimos a hipótese de que o fumo é responsável pelas mortes prematuras, é preciso então colocar na relação o sobrecusto social (cuidados médicos etc.) e os ganhos realizados. Como disse Marlene Dietrich em suas memórias: “As pessoas acreditam que, deixando de fumar, deixam de morrer. É falso, claro; elas morrerão de outra coisa”, cujo tratamento terá evidentemente um custo. As mortes prematuras evitam as despesas dos outros doentes, sem falar da economia nas aposentadorias! Não é portanto certo que, apesar de admitirmos que os efeitos do fumo possam ser os denunciados, o fumo custe à coletividade mais do que lhe “rendem” as mortes prematuras. (...)”

Outro que me fez pensar foi Luis Felipe Pondé, colunista da Folha de S. Paulo, que, depois de falar sobre o impulso fascista moderno - que aparece na quantidade de energia gasta para se reprimir o tabaco em nome da saúde dos não-fumantes e da economia em saúde -, diz: “Se comer carne aumentar os custos do Ministério da Saúde, fecharemos as churrascarias? Crianças diagnosticadas cegas ainda no útero significariam uma economia significativa para a sociedade. Vamos abortá-las sistematicamente? O eugenista, o adorador da vida cientificamente perfeita, não se acha autoritário, mas, sim, redentor da espécie humana.”

Na coluna da semana seguinte, Pondé retomou o assunto: “Outro veneno é a associação com a ciência. Aqui tocamos o fundo do poço. Só idiotas, ou fascistas confessos, mesmo que mentirosos, creem em verdades científicas como parceiros éticos.
A rejeição de comportamentos construída via argumento científico tem a seu favor do ponto de vista do fascista a segurança de que ela é inquestionável. E se a “ciência” tivesse provado que os judeus eram mesmo seres inferiores e eticamente poluidores do mundo, seria correto exterminá-los? Ou pelo menos confiná-los?
Imagine, caro leitor, se em alguns anos “a ciência descobrir” que fumantes e ex-fumantes emitem partículas cancerígenas pela respiração. Claro que esse “a ciência descobrir” pode significar uns quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes. Como proceder?”

Com Pondé, concorda João Pereira Coutinho. Colunista do mesmo jornal, ele também aponta traços totalitários na lei (inclusive o fato de ser apoiada pela maioria - posto que "extremismos políticos só sobrevivem em sociedades cúmplices") em nome da perfeição física. Toma como premissa que a idéia de "fumo passivo" é um mito e, portanto, um dogma. Mas diz duas coisas que acrescentam à essa discussão. Primeira: "Mas o melhor da lei vem no policiamento. Imitando as piores práticas das sociedades fechadas, a lei promove a delação como forma de convivência social. Por telefone ou pela internet, cada cidadão é convidado a ser um vigilante do vizinho, denunciando comportamentos 'desviantes'." Segunda (ele compara a lei antifumo com o antissemitismo de 1933, já que limita a liberdade individual a um nível comparável ao do cerco aos judeus): "A lei antifumo cumpre esse propósito. Proibir o fumo em lugares fechados, como bares ou restaurantes, é um ataque à propriedade privada e à liberdade de cada proprietário decidir que tipo de clientes deseja acolher no seu espaço. O mesmo raciocínio aplica-se aos clientes, impedidos de decidir livremente onde desejam ser acolhidos."

Volto a Pondé: “o que humaniza o ser humano é um equilíbrio sutil entre vícios e virtudes. E, quando estamos diante de neopuritanos, de santos sem Deus, os vícios é que nos salvam. Não quero viver num mundo sem vícios. E quero vivê-lo tomando vinho, vendo o rosto de uma mulher linda e bêbada em meio à fumaça num bistrô.”

A fumaça, ao mesmo tempo que borra os limites entre as pessoas (porque, fisicamente, nos cobre de neblina e, no imaginário, nos envolve num mesmo manto debaixo do qual todo mundo fica mais à vontade para trocar confidências), marca a nossa diferença. Pelo incômodo, reconheço a alteridade – apesar de muitas afinidades e do afeto, temos diferenças imprescindíveis para que haja troca e o cigarro explicíta isso já que eu, não-fumante, preciso adentrar o embaçamento e eles, fumantes, emergir da névoa.

Sobre a importância dos limites, chamo meu caro Bauman, que cita Mellicci:
"(...)E no entanto havia autênticos limites, que lembravam a sua presença de forma tanto mais cruel por passarem despercebidos e não serem respeitados. E um limite, como diz Alberto Mellicci, “representa confinamento, fronteira, separação; por isso também significa reconhecimento do outro, do diferente, do irredutível. O encontro da alteridade é uma experiência que nos coloca em teste: dele nasce a tentação de reduzir a diferença à força, podendo também gerar o desafio da comunicação como um empenho constantemente renovado.” - in: Globalização.

Homogeneizar os ambientes, tornando-os saudáveis excluindo o cigarro, é maquiar o conflito que torna saudáveis as relações. É reduzir à igualdade forçada. O conflito que até a lei era explícito, aberto, frutífero, tornou-se velado. O fumante fica impaciente porque precisa fumar e essa impaciência atrapalha a conversa. Agora, por conta do “sistema” não há mais motivo para negociação. Não pode fumar perto de mim e pronto. O “sistema” picotou a comunicação e eu deveria me apegar ao conforto de chegar em casa com as roupas limpas?

Conviver com o cigarro é bom porque faz lembrar como somos frágeis – algo tão assustador em tempos de plastificação de corpos e triunfo da indústria farmacêutica – aos vícios, à morte (por câncer, úlcera, qualquer coisa), à rinite, ao desconforto (que é mais esclarecedor que o conforto).

Além disso, respirar a fumaça dos meus amigos (pressupondo que eles vão continuar investindo em dentes feios e bafo) garante (se é verdade que o fumo passivo compromete a minha saúde) que eu viverei mais ou menos o mesmo (talvez pouco) tempo que eles. O que é bom porque, afinal, qual o interesse de viver alguns anos a mais sozinha? Mas é óbvio que eu prefiro viver 180 anos ao lado deles. Se possível, vendo os políticos se preocuparem com coisas realmente importantes.

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

Um talvez

Ao caipira morador antigo da Av. São João, eu perguntei:

- É aqui a Av. São João?
- Olha, é possível que sim...

Sem uma nesga de ironia, ele ousa não saber em meio a tantas buzinas taxativas. A esse apalpamento humilde do real que nunca o reduz à obviedade eu dei o nome de respeito, mas talvez haja outro melhor...

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

Fiz um twitter!

Uma descrição por dia de uma pessoa qualquer. Pedaços de paisagem e recortes de diálogo. Em breve, uma cidade inteira em tijolinhos de 140 caracteres no Twitter: http://twitter.com/pati_vieira .

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Espessura

Todos os ovinhos de chiclete de uma só vez na boca. Sete mastigadas - o suficiente para juntá-los numa massa grande. As casquinhas, ainda não dissolvidas, espalhadas no bolo multicolorido. Os sabores descendo intensos, como mel, pela garganta. Todos os dentes ocupados na maceração. Sete mastigadas e eu pegava cuidadosamente o composto heterogêneo para grudá-lo sob o criado-mudo do quarto. Então, a boca vazia curtia saudade de preenchimento. Mucosa em prantos. No dia seguinte, eu voltava ao criado-mudo. Dessa vez, para descolar com a unha a nebulosa já seca e dura da superfície de madeira (processo que levava tempo suficiente para reencharcar os dentes, os lábios, a língua). Recolocava na boca. Umedecia a pasta até que ela amolecesse completamente e então: sete mastigadas. Persistia nessa atividade rigorosamente lúdica durante dias, até que o chiclete se homogeneizasse e perdesse completamente o gosto e a maciez - que podia ser nunca, eu acreditava, dependendo da qualidade dele e da minha contenção. Consumo lento dos sabores e texturas, cultivo do desejo, interrompido sempre em seu ápice, de modo a garantir mais uma lambida de satisfação no dia seguinte. E no seguinte... e no seguinte... e no seguinte... Minha infância foi toda permeada por essa experiência com a goma de mascar. Os reencontros eram sempre precedidos de assepsia bucal, para evitar contaminação por eventuais restos de alimento. Cada interrupção era um ato de sacrifício que, depois, convertia-se em prazer. Prazer fugaz para que fosse duradouro. E surpreendente. Era sempre surpreendente, pois eu nunca sabia qual seria o último dia, quando o chiclete sairia da minha boca para o lixo.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Narizé

A Nikolai Gógol - pela inspiração (em todos os sentidos)

O milésimo espirro foi tão forte que seu nariz voou longe. Não houve sangue. O nariz era, desde sempre, um adendo de seu rosto, uma parte grudada depois, como se com velcro.
Naquele dia de outono empoeirado, acordara com as narinas em fúria, desmanchando-se num sapateado de coceiras, fungadas, espirros. Era um caminho sem volta. O sapateado alcançaria um ápice avermelhado e frenético, que nenhum lenço é capaz de conter, de soltar faíscas gosmentas enquanto as mãos tentam, lerdas, enxugar as fossas, acalmar tamanho descontrole.
Não era um nariz. Era um bebê faminto no meio da cara-berço.
Quando ele foi arremessado longe, mais precisamente para trás da escrivaninha, primeiro veio o assombro. Um silêncio invernal conteve a queda das folhas no jardim que, por um instante, detiveram-se suspensas no ar. O rosto estava estranhamente em paz com a mutilação da tormenta. Como quando se solta um animal enjaulado para a liberdade - a princípio, ele se enraivece como nunca, mas, depois que ele some, correndo, do campo de visão: calmaria.
Ainda respirava. Sem o funil peludo das narinas, não havia censura. Para o pulmão iam, sem baldeação, todas as impurezas do ar. Mas nada mais o fazia espirrar. Alívio incomparável de remar por águas tranqüilas nunca d’antes navegadas. Não havia nem o lodo da mucosa para atolar o barco.
Deitou-se na cama para aproveitar aquele pequeno pires de sossego respiratório antes de começar a busca pelo pedaço de inferno que era parte integrante de sua personalidade e que, portanto, teria de, infelizmente, ser reemendado. Lembrou-se da interpretação dada por sua analista ao ouvir um sonho com temática própria para otorrino: “nariz é metáfora de destino, é como uma seta.” e pensou “agora sim, pelo menos temporariamente, sou um homem livre. Não tenho mais um destino adunco ou arrebitado ou de batata ou achatado para seguir. Meu destino não é mais irritadiço! Sou um indivíduo plácido, capaz de observar as folhas despedindo-se dos galhos, o padeiro bater as mãos cheias de farinha no avental, o motorista de taxi acender um cigarro, a irmã aplicar desodorante aerosol e a faxineira sacudir o tapete sem terror.” E decidiu ficar uns dias sem nariz. Já ia saindo de casa saltitante - aquilo era a felicidade, afinal! -, mas não achou prudente largar um pedaço do corpo no canto escuro atrás da escrivaninha. E se aranhas, baratas ou quaisquer outros insetos o devorassem, atraídos pelas melecas? E se confundissem as caquinhas endurecidas com migalhas de pão, queijo... era melhor guardar numa caixinha e garantir sua integridade. Fez isso e retomou o caminho da rua, empolgado para ressignificar todo o mundo a partir de um ponto de vista não mais apoiado sobre o vulcão. Tinha um vazio no rosto ansioso por ser preenchido pelos mais variados tipos de odor. Queria fumaças, gotículas, perfumes, pó em grande quantidade. Queria submeter o nariz, ou melhor, a ausência dele, a experiências que, até então, na sua existência alérgica, tinham sido apavorantes.
Então, diante do pet shop estopim de incontáveis crises que o levaram à beira da morte, determinou-se a entrar. Pediu à balconista (obviamente assustada com o rapaz desprovido de extremidade frontal) para enfiar o orifício no poodle que estava no secador:
- Quero enterraaaaaaar essa cratera aqui nesse cããão!!! – ele gritou como se estivesse bêbado, tamanha era a sua alegria por conseguir ficar mais de 2 segundos no interior de um pet shop sem transfigurar-se nasalmente num pit-bull.
A balconista, pasma, não negou o pedido. Afinal, aquela situação era tão inédita que não queria presenciar a reação do sujeito diante de uma negativa.
Ele grudou o nariz no poodle e nada de espirro. Esfregou a cara inteira no corpo do bicho e nenhuma coceirinha o incomodou.
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!!!! – ele saiu correndo da loja com os braços levantados. Tinha ganhado na loteria – Nunca mais quero nariz! Nun-ca mais que-ro nariz! Nun-ca mais! Nun-ca mais! – desenvolveu uma musiquinha acompanhada de uma dancinha para comemorar a nova vida.
Em seguida, engajou-se na luta para que “Todos os riníticos desse mundo libertem-se de seus narizes problemáticos. Arranquem! Cortem! Vias respiratórias sem fiscalização são a solução!”
Mas, aos poucos, deu-se conta de que, na verdade, ele não sentia odor nenhum. Apenas não tinha mais reações alérgicas aos componentes aéreos da Terra. Com o nariz, poucas vezes sentia cheiros, é verdade, pois, na maior parte do tempo, estava entupido ou tão preocupado em comportar a enxurrada que não podia deliciar-se ou horrorizar-se com os estímulos. Mas, como o nariz era o único canal que tinha para saborear a dimensão cheirosa da vida, tomou a difícil decisão de reintegrá-lo à face.
Chegou em casa cabisbaixo... não havia escolha. Sentia saudade de ser tocado pelo mundo impalpável e invisível – ainda que de maneira pouco amistosa. Desembrulhou o nariz e recolocou-o no lugar. Inspirou profundamente e logo veio a erupção. Não tinha jeito... aquele nariz rabugento era ele. E quer saber? Depois dessas férias silenciosas, não era mais sincero chamar o próprio nariz de rabugento. Era só um nariz sensível, que precisava de atenção. A falta que sentiu de si mesmo nesse período de exílio de seu próprio Monte Fuji o fez incorporar no nome o nariz. Ele passou a ser chamado de Narizé. E atchim passou atchim a vida atchim espirrando atchim feliz atchim e vendo atchim o mundo atchim entrecortado.

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Encontro

Belém - Pará (julho de 2008)

- Não esquece de passar a buchinha, tá!?

O feijão ainda nem tinha ido para o fogo. O alho e a cebola estavam quase dourados o suficiente quando o gás acabou. Julieta nunca tinha trocado o botijão e ficava rezando sempre que Oscar descia para fazer a troca. Ai, Oscar, peloamordedeus, não esquece de passar a buchinha depois... já pensou se vaza? Mas ela estava sozinha. Oscar já morava em outra cidade, com outra família. Era feijão para um só. E o gás acabou.
Julieta não pensava em Oscar fazia tempo. Até desejava, sinceramente, a felicidade plena dele fosse com quem fosse. Não importava que não formavam mais um casal - o amor é sublime e etéreo. Como água que evapora e se desloca no ar, não precisando mais ficar aprisionada ao chão, o amor de seu peito havia se dissipado, atingindo um estado invisível, impalpável, mas capaz de virar chuva. Só que ela não sabia que podia virar chuva. Podia virar tempestade... e a luz piscante do farol que a guiaria até a praia apagara.
- Não há nada mais triste, Julieta, do que cortar pela metade a quantidade de feijão.
- Há, sim.
Acontece que ela só percebeu a tristeza disso naquela tarde. Até então, tudo estava muito bem. Estava. Constatação triste atrasada vem em dobro e ocupa a metade do feijão que ia para o fogo e talvez mais um pouco.
O feijão nem foi para o fogo... paramos no alho e na cebola que sequer foram completamente refogados. Era tão o começo da receita que Julieta... Julieta pôs o coração na panela. Mas não havia gás... ela consumiu-o cru. Sozinha.
A saudade que sentia da presença de Oscar era sem fundo, um buraco negro no meio do fogão tragando tudo e ela não tinha visto.
- Acho que, enquanto tinha gás, o fogo escondia.
- Pois é.
O fato é que as bocas, secas, faiscavam Oscar. E incendiavam Julieta, que queria mais que tudo ouvi-lo dizer – Bonita,.
O vocativo santo que era lareira no inverno, mangueira no verão, guarda-chuva. Vocativo que mantinha tudo sempre morno não importava o que acontecesse: - Bonita, vem!
Podia ficar surda, mas precisava ouvir uma vez mais: - Bonita, vem! Bonita, vai! Bonita, quer? Bonita, pára! Bonita, tudo bem? Bonita, meu bem... em qualquer circunstância, entonação, vinha sempre acompanhado de um conforto inteiriço, inigualável. Lã nobre, cuidadosamente entrelaçada, que embalava os dois com a frouxidão necessária para que houvesse ar alimentando o fogo entre eles.
E o gás acabou. Choveu.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Harpa


Bueno Brandão - MG

Aguaceiro

Morava na beira da praia e na beira do rio - entre o doce e o sal. Um dia foi visitada por um náufrago que não pedia água. Pedia um copo, porque suas mãos não mais serviam de cuia, vazadas que estavam, e sua boca era oceano de sede. Ela foi com ele até o rio. Ela, ele, o copo. Os dois em comunhão no vazio do copo que os havia unido. No caminho, ela carregou o copo. Já no rio, ela enchia de água e entregava a ele, que não bebia com urgência. Ele degustava a água como quem pinta uma aquarela no esôfago. Ela olhava para trás a cada pausa nos goles e via além das pegadas que eles haviam deixado juntos na areia e no lodo. Misturava, numa verborragia interna, a história de cada pegada com as características de cada gole d’água dado e futuro. E futuro! Numa absorção intensa dele, dela, do entorno, do tempo, engolia as bordas do mundo como uma onda... ignorando o siri. Foi um romance inteiro de centenas de páginas nos primeiros 300ml de rio. Ele sobreviveu.

O mato e o acadêmico

Sabe aqueles caras que fizeram um milhão de coisas na vida, mas não conseguiram levar uma carreira adiante? Sei. Tipo o Edu. É! O Edu... Ele passou a vida começando cursos e faculdades. Concluiu Filosofia, fez mestrado, doutorado, deu aula e depois largou a vida acadêmica. Abriu uma produtora de animação em flash, fechou. Abriu uma produtora de eventos, conheceu a Bia, que era atriz, casou. Num feriado desses, eles foram visitar a família dela em Minas e ele decidiu não voltar. Compraram um sítio, ele ficou. Ela veio. Ele gostou da bota de couro, da espora. Achou que a mão calejada, de cuidar da criação e do cafezal, estava no caminho de dar um charme. Mas, quando elas ficaram mesmo calejadas, ele se esqueceu de pensar se estava charmoso ou não. As pernas se misturavam com os troncos das árvores, os pés com as raízes. Dava para fazer rali na pele do rosto e a Bia... bom, a Bia ficou em São Paulo, no apartamento de 200m quadrados e carro zero na garagem, enrolada num edredon da M.Martan. Num feriado desses, ela comprou três peixinhos para fazer companhia... estava se sentindo tão sozinha.... e morre de medo de que alguma pilantrinha da roça apareça no sítio para fincar o machado no coração do Edu. Mas o Edu só quer saber de fazer fogueira em cima da montanha e acabou nem se lembrando de batizar um dos peixinhos, como a Bia pediu. Putz, tem coisas que só a Bia mesmo para fazer... ela, por exemplo, quis uma casa na praia com o rio passando pela sala. Eu fiz. Eu ia lá todo dia, eu e o pedreiro, uma puta mão de obra que você não imagina. Mas ficou exceleeente o rio na sala. Excelente, viu!? O puro creme do milho. Aí a gente vendeu a casa para comprar o sítio e, putz!

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Mais desassossego

O Livro do Desassossego, definitivamente, arrebatou-me. Frito o dia todo no óleo das desconexões de Bernardo Soares, um ajudante de guarda-livros que mora na Rua dos Douradores, e decidi citar alguns trechos aleatórios aqui pelo seguinte motivo, que ele mesmo explica:

259.
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. (...)


12.
(...) Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.

252.
(...) Não querer compreender, não analisar... Ver-se como à natureza; olhar para as suas impressões como para um campo - a sabedoria é isto.

23.
(...) O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as pacientemente e honestamente, só para depois agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.

10.
E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entonações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. (...)

26.
Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma. (...)

27.
A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira. (...)

257.
O pensamento pode ter elevação sem ter elegância, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a acção sobre os outros. A força sem a destreza é uma simples massa.

260.
A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. (...)

42.
(...) assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.

123.
A renúncia é libertação. Não querer é poder.
Que me pode dar a China que a minha alma não me tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir em busca da riqueza ao Oriente, mas não da riqueza de alma, porque a riqueza de alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.
Compreendo que viaje quem é capaz de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação de quem os escreve. E se quem escreve tem imaginação, tanto nos pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição, forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver. Somos todos míopes, excepto para dentro. Só o sonho vê com olhar.
(...)
No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas só - o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana
(...)
Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.

21.
Haja ou não haja deuses, deles somos servos.


Faço aniversário na segunda-feira. Proponho uma troca de trechos inspiradores de qualquer coisa.... em troca, dou mais passagens imperdíveis do semi-heterônimo de Fernando Pessoa que tenho namorado ultimamente. Que tal?

Sobre almôndegas e sukiyakis

Há algum tempo moro na região entre o Bixiga e a Liberdade. Spaghetti no almoço, sushi no jantar. Saquê num dia, vinho no outro. Palavrone one mamma mia num quarto, tchan tchan gozai mas na sala. Contenção e espalhafato no meu sentimento. Abundância e grão de gohan numa única gaveta de caixinha de música. Ali, entre o Bixiga e a Liberdade, eu, atrás de um mandacaru piauiense, espio cada coisa com o corpo todo perplexo - a língua tomada de wassabi e os ouvidos de tarantella: o encontro é mesmo um mistério.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Destino e Abnegação

Mariana amou Abel.
Abel amou Mariana.
!!!
Três dias de festa
E então?
...
Envelheceram três anos em linha reta.

Um dia:
Ele, arquiteto, desenhando uma torre para a praça no escritório. Ela, atrás dele, retirando suas caspas cuidadosamente, juntando-as alinhadas numa taça - cheirava os dedos para experimentar o odor daquela dedicação tão completa.

Viviam em fila indiana.

Quarta-feira, Maio 27, 2009


amar é verbo.
Amor é nome.

nome não tem tempo.

verbo tem.

amar é humano.

Amor não é.

amar é mortal.

Amor não é.

amar é parte: daqui até aqui.
Amor é indefinição. Mas significado.

amar é bolha de sabão: piscou, estoura.

.acaba.

Amor não sei

Desassossego

Eu disse que os livros caem nas minhas mãos para preparar. Mas, ultimamente, eles têm andado no mesmo passo que eu. Comecei a dançar a mesma música que eles, ou eles a mesma que eu. Não estamos mais com uma faixa de diferença. Percebi isso num susto. Fernando Pessoa disse o seguinte, na minha cama, antes de eu dormir, pela boca de Bernardo Soares:

“A fadiga de ser amado, de ser amado deveras! A fadiga de sermos o objecto do fardo das emoções alheias! Converter quem quisera ver-se livre, sempre livre, no moço de fretes da responsabilidade de corresponder, da decência de se não afastar, para que se não suponha que se é príncipe nas emoções e se renega o máximo que uma alma humana pode dar. A fadiga [de] se nos tornar a existência uma coisa dependente em absoluto de uma relação com um sentimento de outrem! A fadiga de, em todo o caso, ter forçosamente que sentir, ter forçosamente, ainda que sem reciprocidade, que amar um pouco também!” E continua: “Sobre as emoções tenho curiosidade. Sobre os factos, quaisquer que venham a ser, não tenho curiosidade alguma.” E mais (e mais!):A renúncia é libertação. Não querer é poder.” Agradeci a Fernando Pessoa por mudar o meu ponto de vista e dormi o sono dos compreendidos.

Segunda-feira, Maio 04, 2009

O meu professor de lógica

Ele é morbidamente branco. Rosto fino, emoldurado por cabelo bem curto, castanho escuro, com entradas profundas (a do lado esquerdo de quem vê é mais profunda, o que deixa a testa torta) e orelhas estreitas bem coladas à cabeça.
O crânio tem uma formação diagonal, como Felipe, personagem das tirinhas da Mafalda, do Quino. O queixo não chega a ser projetado, mas o maxilar deseja com fervor ultrapassar o nariz, que, por sua vez, é sobriamente reto e, claro, fino. Finos também são os lábios – que escondem dentes enferrujados - e as sobrancelhas, unidas por uma ponte suave que desce em direção ao nariz, formando um “u” obtuso.
Os ombros levantados iniciam o desenho curioso do tronco do meu professor de lógica: meio corcunda, com a região pélvica extrovertida como uma gaveta semi-aberta. Gaveta que abre de supetão quando uma gargalhada o acomete. Nesses momentos, o ponto de interrogação que compõe o tórax quase se transforma em anzol. E, por um triz, eu não sou fisgada. Estou sempre tão disponível à paixão, mas o anzol desta lógica não me alcança, nem esbarra. Fico com saudade. É isto! Saudade de algo que tinha tanto para ser, e no entanto dos nossos tantos não é. Era para haver cópula intelectual. Estou lá para isso, deixo a calcinha em casa, mas não me dá vontade de levantar a saia. E ele, que, aposto, também vem sem cueca, não sussurra no meu ouvido “abra um pouco as pernas...”.
Arrisco ainda que na pele por baixo das invariáveis camisa branca, com mangas dobradas até o cotovelo, por dentro da calça social azul marinho combinadas com sapatos e cinto de couro preto, há perfume. Mas estou longe demais para senti-lo. Longe demais também para sentir a textura dos pêlos pretos e abundantes (estudaria avidamente o cálculo proposicional se soubesse atribuir valor de verdade à proposição: “ele lava os pêlos do peito com xampu.” Por isso, ficam macios), do tipo que povoam as mãos e chegam a constituir uma luva rala que toma até a falange dos dedos. São pêlos do tipo que trepam no peito e se revelam na base do pescoço, à mostra pelo único botão em férias de seu uniforme.
Andar largo, ou melhor, passadas largas – os calcanhares são fincados no chão, como quem cava o caminho. Os pés puxam as pernas, que puxam o tronco, que nunca alcança o quadril. É um andar, por assim dizer, nostálgico. Há sempre uma parte que se demora no adeus e um queixo que queria beijar o peito...
O sotaque é palidamente carioca, com a interjeição “Ah!” (pensativa) tropeçando em todas as frases. E em todas as frases me lembro de que não entendo seus olhos... ele nunca olhou para mim. Talvez por isso não penetre nas minhas ideias. Seguimos assim, suspensos no quase filosófico.

Amor organizadinho em três atos

Astuta
Borboleta
Coralina

Amarga
Beirada
Contrária

De Astuta Amarga quase que não sobrou nada.
Borboleta Beirada era amante de Adeus.
E Coralina Contrária, Emudeceu, sou eu.

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Estrada pedregosa


Lugar-comum é conforto. É um ponto em que muitas pessoas se reuniram e disseram: é, é isso mesmo. E beberam água para descansar. Por isso há tantos lugares-comuns sobre as coisas que realmente importam na vida, as coisas do homem, as coisas do mundo e dos mistérios do universo.
O amor permeia as três, eu acho. É coisa do homem, enquanto sentimento e nó. É coisa do mundo, pois este se veste de metáfora. E é, obviamente, mistério do universo.
Talvez o mistério não seja uma terceira matéria que realmente importa na vida, mas a interseção entre sentimento e mundo, a linha invisível que ata as duas partes. Enigma. Mas divago.
É claro que, para mim, a coisa mais importante das coisas mais importantes do mundo é o amor. É dele que tento me aproximar em todas, todas, as minhas investidas, todas as minhas perguntas. Nasci escrava disso. É claro que me perco e me enrosco e tropeço, como todo mundo... e eu acho que isso acontece porque só chegamos ao hall de entrada das coisas que realmente importam na vida. Aí especulamos eternamente sobre o que há lá dentro. Farejamos por de baixo da porta, intuímos, colamos o ouvido às frestas, inventamos, mas só. Só! Os lugares-comuns, então, resumem-se a curativos para quedas ainda no hall de entrada. Aí as pessoas se ajudam. Quando uma cai, outra aparece para conduzi-la ao lugar-comum mais próximo, para que possa recuperar a respiração. E a que ajudou, certamente, vai cair também. Então, outro enfermeiro será necessário para lembrá-la onde fica a maca.
Por que será que esquecemos qual é o bálsamo entre uma ajuda e uma queda? Fato é que a memória falha para as maiores trivialidades. Eu mesma praticamente tenho Alzheimer. Esses dias, precisei de auxílio para me lembrar de que, na vida, é imprescindível virar a página para continuar escrevendo. Se você tenta escrever em cima de onde já escreveu, embaralha tudo, ninguém consegue ler e você mesmo pode se atrapalhar no meio de tantas letras sobrepostas. E, mais importante: virar a página não é apagar. Sempre que eu quiser, posso voltar lá para ler. Virar a página é só virar a página e começar outra folha do zero... porque todas as histórias merecem ser começadas do zero, ou, simplesmente, começadas. Assim como merecem ter meio e fim próprios. Mesmo que sobre um calhamaço de escritos, ainda que precedidas por um parágrafo de articulação com o enredo anterior. E o calhamaço de escritos merece descansar. Só assim pode virar tesouro. Se fica exposto sempre... hum... bibelô da sala.
"Como numa viagem, sabe? Você tem a bagagem, guardadinha na mala, e a roupa do corpo. Não dá para levar tudo no corpo."
O melhor é que esse band-aid serve para o caso de eu ser a autora, parte da história nova ou da história velha. E isso amansou muitíssimo o meu coração - agora tranquilo e grato.

Terça-feira, Março 24, 2009

A impiedade do ritmo

Para Anis, meu professor.

Hoje foi minha primeira aula de piano. Recebi um elogio pelos meus dedos longos e o potencial que eles tem para acordes largos. Potencial para abarcar tantas teclas de uma vez só! Mas falta destreza. A partitura ainda tão enigmática na minha frente, as mãos ainda pouco elegantes e gentis... estou tentando. Por enquanto é só uma briga, que não deixa de ser dança, com o instrumento enorme. A harmonia é para ser conquistada, com suor, meu deus, quanto suor. Meus dedos estão acordando: alfabetização do corpo, dos afetos. Sinto-me tão civilizada na aula de piano. Um requinte só... que eu ainda cortejo. Ai, como desejo essa sabedoria corporal, esse finesse dos sentimentos em dois tipos de clave. Quero civilizar em música toda a minha dissonância.

Quinta-feira, Março 12, 2009

O sentido das coisas

Eu só escrevo sobre amor. Maldição que fui nascer com tanto sentimento no sangue e tantas vírgulas na cabeça. E se o fluxo de coisas estiver errado? As mãos das minhas vias internas... Sangue embriagado subindo e voltando mais embriagado ainda. Ou envenenado.
Fui para Belém sem saber o que procurava. Agora tenho uma pista. Fui para encontrar um livro que só podia ter encontrado lá, naquele momento, naquelas condições: A Disciplina do Amor, da Lygia Fagundes Telles. Era uma preparação. Os livros caem nas minhas mãos para preparar e não para explicar. Só entendo o sentido deles depois. Primeiro vem o espanto.

Quarta-feira, Março 11, 2009

Linha, nó, tesoura

Eu tricoto
ele
corta.
Eu tricoto
ele
parte.

Eu desfaço.

Ele volta.

Fica.
Pede para eu tricotar.
Eu tricoto.

Ele

vai.

Eu fico.

Sexta-feira, Março 06, 2009

A língua grudada no céu da boca

Tenho um coração devorador e um estômago fraco.
Quando o coração se empapuça com tempero forte,
o estômago faz greve. A boca obedece. Estresse.
A pele mergulhando em direção aos ossos,
o corpo inteiro digerindo o que o coração engoliu sem mastigar direito.
Tudo sobrecarregado. Sem espaço para um copo d’água.
Vou minguando. O pensamento obeso. O coração enjoado.
Tempo lesma. . . áspero.

Terça-feira, Março 03, 2009

Monólogo

Você já vai? Fica mais um pouco. Só mais um pouco. Eu acabei de tirar o bolo do forno, espera esfriar. Eu, eu faço a cobertura em dois minutos, prometo. Eu tava lembrando, outro dia, daquela vez que a gente saiu pra jantar... Olha só, é colocar essa fôrma aqui... ai! Queimei o dedo! Saco. Aí eu misturo isso aqui e isso aqui na panela, mexo rapidinho... fica, por favor. Assim você come um pedacinho. A gente come um pedacinho juntos. É tanta pressa assim? Você não tinha dito que tinha compromisso. Eu arrumei a casa, te esperei, fiz bolo, chá, aluguei filme, pensei em coisas para a gente fazer juntos a tarde toda e você... você já vai? Vem aqui pra cozinha, assim eu te convenço a ficar. O que? Não tô te ouvindo... já vou aí.

Cadê voc...? E o bo...lo... meu... meu amor?

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

Brocas e metáforas

Não sei se isso acontece com todo mundo. Será que acontece? Mas comigo é até que bem frequente ter a sensação de estar vivendo uma metáfora. Como quando eu tive uma pedra no rim. De tão literal, a dor virou uma metáfora. Como hoje, quando fui ao dentista e ele perfurou meu dente com uma broca barulhenta, que fez terremoto no meu cérebro. Bem hoje, que o meu cérebro já estava meio bambo. Aí acontece a mágica: eu continuo sentindo dor, claro. Mas ela não é mais dor. É metáfora latejante. Eu chorei e desisiti de explicar ao doutor que as lágrimas não eram de dor, eram de metáfora, de emoção de metáfora. Eu tinha sentido exatamente aquele incômodo horas antes, na noite anterior, quando uma broca perfurou meu coração e causou uma hemorragia. E, na manhã seguinte, vem a broca-metáfora para obturar meu dente e meu coração cariados. Aqui, a hemorragia foi de espanto, por me descobrir poesia. Eu me curo com metáforas.

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

- Onde se coloca o sentimento diante do amor alheio?

Era um envelopinho lilás, com um coração no lugar do destinatário, preso no limpador de para-brisa. Eu, que nunca troquei bilhetes de amor em quartas-feiras nubladas, senti raiva. Não era inveja. Era raiva. Espalhar seu amor pelas vias da cidade, à vista de qualquer transeunte, é ousadia demais! O mundo não é alegre e empestear o asfalto com um romantismo, obviamente, restrito a um par de versos entrelaçados em estrofe que não trata só de amor é abusar da própria liberdade na medida em que cerceia a de outrem (que pode desejar não esbarrar em amor). E esse outrem são todos os outrem que não amam - como eu. Ou que, pelo menos, não amam como eu, que é do jeito correto: reservadamente. Amor não se derrama, se engole.

- Eu coloquei no bolso.

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Do not disturb

Quando passa o rastro do encontro, o rastro que traga tudo em volta e te faz viver em função do amor, as outras coisas da vida passam a te exigir, a te intimar. Não que você não ame mais, às vezes ama mais, mas a disponibilidade que o encontro te dá é confiscada.
O encontro é como um acidente. Algo fora da rotina, da razão, do percurso, que te tira de circulação por tempo indeterminado. Como quando você, sei lá, bate o carro e quebra a perna.

- Foi de repente. Não dá para ir trabalhar, sinto muito. Vou ficar em casa uns dias. Se sarar eu volto. Desliga o meu computador, please? Tchau.
Quando você se apaixona, mas se apaixona mesmo, tinha de ter direito à licença de alguns meses, porque, mesmo sem licença oficial, você tira, arranja, forja, rouba uma licença e passa a viver só aquilo. Só aquele furor, só aquela pessoa. E o mundo... que mundo? Há vida além do amor? Nem que seja só durante as madrugadas. A licença, então, é do sono. O sono é desnecessário perto do amor.
Mas aí... mas aí... como quem vira a ampulheta, a partir do encontro, a vida vai enxugando a enchente, o sol nasce e a cidade já está pronta para uso novamente.
Já!
É preciso ganhar a vida e encontrar as pessoas, comprar isto e aquilo, cumprir metas, aparecer em eventos, fazer coisas em geral. Coisas em geral são todas essas coisas secundárias, que perdem o sentido temporariamente quando você se apaixona e que, quando a maré baixa, impiedosamente te sugam e reservam o canto da semana para o sentimento.

Segunda-feira, Janeiro 05, 2009

Sobre a ordem

Quando você é organizado, não há acumulo de coisas. As coisas nem são coisas. Cada uma tem seu nome, seu tamanho, seu compartimento, seu lugar. Quando você viaja, na volta, os itens transportados retomam os seus postos sem demora. Quando você é organizado, não há nem demora. Tudo tem seu tempo e o tempo é sempre organizado. Então, é sempre tempo de organizar. Não há reticências entre um segundo e outro, mas décimos, centésimos, milésimos bem definidos. Mas, quando você é desorganizado, tudo se acumula e se mistura e se amontoa. Das coisas, que perdem suas fronteiras de nome, forma, compartimento aos sentimentos, que já não tem forma, compartimento e às vezes nem nome. Tudo ou demora ou se apressa. Se acontecesse no tempo certo... difícil haver tempo certo na desorganização. Quando você é desorganizado, o mundo se amontoa, deforma, borra, desfigura. Tudo vira pintura de Cézanne.
As malas são desarrumadas dias, semanas depois da aterrissagem. As roupas sujas se misturam com as limpas, as molhadas com as secas, as passadas com as presentes e os cheiros tornam-se um. Assim como a bagagem transforma-se em mobília. E a mobília e a bagagem vestem-se de coisas, como todas as outras coisas da casa. Até que um dia você decide abrir aquela caixa de baixo do monte, batizá-la no meio do inferno. Aí você a puxa e tudo desmorona gritando. Seus pés ficam presos.

Sexta-feira, Dezembro 12, 2008

Devastação

Eu já tinha acabado com as mangas da casa da Roberta quando ela propôs que entrássemos no sítio do lado para comer mangas direto do pé. E a gente foi. A dona da casa não estava. Foi, pois, uma invasão. Eu, que cresci intramuros, pedindo sempre permissão pelo porteiro eletrônico de tudo, apertando botões e pedindo automáticas licenças, disparei, envenenada por cobiça, na direção da árvore. Subi, desajeitadamente, o tronco e, com a ajuda dela, estabeleci-me num galho. Eu era uma ladra. De mangas. Com essa liberdade roubada, a mangueira era minha e da Roberta. A gente podia tocar o terror ali em cima, acabar com todas as frutas, até cagar de lá de cima a gente podia se quisesse. A sensação de impedir que a dona da casa desfrutasse aquele banquete maduro, doce, suculento, era a melhor parte. Empanturrei-me mais motivada por esse sentimento do que pela vontade que eu estava de comer mangas. O pé era só meu! Podia me esbaldar! Podia rasgar a pele das mangas com voracidade de onça. E quando estava toda lambuzada, em integração completa com o crime, ela chegou e rodeou a mangueira com bodes, de veias pulsantes, querendo as mangas de volta.
- Como é que eu desço, Roberta??? Não sei enfrentar bodes.

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

Não servia para conceituar

Não dizia mais que os óculos escuro e de grau do vizinho eram parecidos. Dizia que eram irmãos. Não pensava que os curadores dos museus selecionavam quadros para as exposições. Pensava que eles faziam alquimia com a arte. Quando queria dizer que estava inseguro, saía: eu estou de malas prontas. Não pensava que pensava. Mas que auscultava os batimentos da mente. E tinha um ótimo estetoscópio. De tanto nadar em imagens, ficou mudo.

Sexta-feira, Novembro 28, 2008

O nada

Depois de tomar a grande decisão de mudar de bairro, Ni abriu a porta da nova casa esperando... esperando algo. Algo! Mas só tinha silêncio. À grande decisão seguiu-se um ponto final, mas não um parágrafo. E agora? - ela perguntou. Silêncio. Nem os tacos do chão estalavam. As linhas mudas. Ai, meu deus. O que se faz com esse vazio? - ela se perguntou.

Ah... o amor


Duas borboletas amarelas namorando sobre o trânsito, às seis da tarde. Tudo parado. Tudo em movimento: para lá e para cá e para lá - teretetê de perder de vista, de sumir entre os escapamentos e esquentar as asas nos capôs! Asfalto? Campo de jasmins.