Dois haikais para Marana Borges
o tempo é tortura
quando saudade esticada
dentro de um só peito
barranco na goela
canyon entre estrofes
o mundo partido
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quando saudade esticada
dentro de um só peito
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Pati Vieira
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Na palestra sobre Santo Agostinho, o professor disse, com palavras mais bonitas do que estas, o seguinte:
Há filósofos que fazem filosofia como pintores. A uma tela branca, acrescentam um axioma, uma dedução, uma demonstração etc. Depositam camadas de tinta e vão construindo sua obra. É o caso de Aristóteles, por exemplo, que parte da experiência sensível para a edificação de um saber racional.
Outros filósofos são como escultores. Michelangelo apenas trouxe à tona o Moisés que já estava na pedra, mediante a remoção dos excessos que o encobriam. O trabalho de Santo Agostinho é o de retirar o entulho que impede a escuta do conhecimento que já está na alma. A voz interior, que fala da nossa essência, está enevoada por outras vozes ruidosas, que precisam ser eliminadas pelo trabalho filosófico.
Contei para o meu amor Alexandream e ficamos brincando, pretensiosamente, de descobrir se, na vida, éramos pintores ou escultores. Chegamos a um acordo: ele é escultor e eu pintora. Isso porque ele deseja a todo custo descamar as lascas da superfície para revelar algo que sempre esteve lá escondido e que é precioso.
No processo educacional, por exemplo, ninguém ensina nada a ninguém. O professor apenas move as barreiras que atrapalham a visão do aluno sobre si mesmo. O conhecimento de si necessariamente desvela, desperta a vontade de aprender. Para Santo Agostinho, a alma não tem vontade. A alma é vontade.
Eu, segundo o meu escultor, pinto porque passo a vida investigando tintas-palavras e vou colorindo as partes do mundo que, por um acaso, estão pálidas.
Eu pinto e ele esculpe e nós dois, no final do ano, faremos uma mostra com as nossas ociosidades.
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5:44 AM
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Acordei mendiga. Vazio absoluto. Xícara quebrada, bule seco. De ontem, só sobrou vento. Escada apoiada em ex-memória. Ex-memória. Água que lava o terreno e enche a pegada de lama. Quando secar, história.
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Um pato, uma casa, uma fonte, o cheiro de três dias sem banho colhendo lavanda. Lindo como um desenho de fumaça e aquarela feito por um orixá. Misticismo sofisticado de não precisar de instituição. O ritual é o templo. Todos os dias ele deixa um copo d’água no banheiro para ela beber depois do banho porque refresca as tripas e os dois acariciam juntos o gato durante a novela. Dormem tranqüilos de milagre ignorado.
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Pati Vieira
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Não fumo. Detesto cheiro de cigarro e tenho rinite alérgica – o que significa que meu nariz coça, arde e entope enquanto estou num ambiente com fumaça e, frequentemente, no dia seguinte a uma imersão em tabaco alheio, espirro centenas de vezes (sem exagero) ou milhares, dependendo da concentração.
Acontece que tenho muitos amigos muito fumantes e eu gosto muito deles, adoro estar com eles, ouvi-los, ri-los. E eles, vejo, de estar comigo, ouvir-me, rir-me. O cigarro é um problema entre nós. Eles, sabendo que eu não fumo, preocupam-se com a direção do vento e até trocam de lugar para que a fumaça desvie das minhas narinas, mas, claro, nunca é suficiente porque quem tem rinite detecta o cheiro de longe. Enfim, é sempre um impasse, motivo de negociação. Já me acostumei, faz parte da relação, como faz parte eu reclamar que meu namorado não coloca sempre a mão na minha perna quando estamos no carro. Colocar a mão ou não é uma questão secundária. Central é a negociação. É natural à nossa convivência no carro a minha reivindicação. Eu atuo o papel da que reivindica e ele o de quem prontamente atende à minha súplica carente. Se ele o fizesse sempre automaticamente, algo se transformaria entre nós.
Pois, desde a lei antifumo, algo mudou na minha relação com meus amados fumantes. É incontestável o benefício respiratório da medida. Eu os encontro e não é preciso cogitar jogar minhas roupas fora. Elas não ficam fedidas e eu não espirro descontroladamente. Mas as conversas, antes deliciosamente ininterruptas, passaram a ser entrecortadas, porque eles precisam se levantar, sair do ambiente fechado em que estamos para fumar. Tudo para garantir que os não-fumantes não tenham câncer de pulmão. E foi aí, num desses momentos solitários, que eu pensei que, diferentemente dos 88% que aprovam (segundo o DataFolha), eu não gosto dessa lei. E, como sempre que você começa a pensar muito sobre um determinado assunto esse assunto te caça aonde quer que você vá, encontrei companheiros que me ajudaram a ver como são rasos alguns argumentos do senso comum para a aprovação do cerco aos fumantes.
Jean-Louis Besson, num capítulo que contrapõe qualitativo e quantitativo em A Ilusão das estatísticas, fala que a “atual ‘carolice antitabagista’ (que se inscreve na religião da higiene) recorre, para elaborar seu catecismo, a argumentos de armazém: o custo pago pela coletividade para cuidar das doenças generosamente atribuídas ao uso do fumo. Mas ao armazeneiro, armazeneiro e meio: se admitimos a hipótese de que o fumo é responsável pelas mortes prematuras, é preciso então colocar na relação o sobrecusto social (cuidados médicos etc.) e os ganhos realizados. Como disse Marlene Dietrich em suas memórias: “As pessoas acreditam que, deixando de fumar, deixam de morrer. É falso, claro; elas morrerão de outra coisa”, cujo tratamento terá evidentemente um custo. As mortes prematuras evitam as despesas dos outros doentes, sem falar da economia nas aposentadorias! Não é portanto certo que, apesar de admitirmos que os efeitos do fumo possam ser os denunciados, o fumo custe à coletividade mais do que lhe “rendem” as mortes prematuras. (...)”
Outro que me fez pensar foi Luis Felipe Pondé, colunista da Folha de S. Paulo, que, depois de falar sobre o impulso fascista moderno - que aparece na quantidade de energia gasta para se reprimir o tabaco em nome da saúde dos não-fumantes e da economia em saúde -, diz: “Se comer carne aumentar os custos do Ministério da Saúde, fecharemos as churrascarias? Crianças diagnosticadas cegas ainda no útero significariam uma economia significativa para a sociedade. Vamos abortá-las sistematicamente? O eugenista, o adorador da vida cientificamente perfeita, não se acha autoritário, mas, sim, redentor da espécie humana.”
Na coluna da semana seguinte, Pondé retomou o assunto: “Outro veneno é a associação com a ciência. Aqui tocamos o fundo do poço. Só idiotas, ou fascistas confessos, mesmo que mentirosos, creem em verdades científicas como parceiros éticos.
A rejeição de comportamentos construída via argumento científico tem a seu favor do ponto de vista do fascista a segurança de que ela é inquestionável. E se a “ciência” tivesse provado que os judeus eram mesmo seres inferiores e eticamente poluidores do mundo, seria correto exterminá-los? Ou pelo menos confiná-los?
Imagine, caro leitor, se em alguns anos “a ciência descobrir” que fumantes e ex-fumantes emitem partículas cancerígenas pela respiração. Claro que esse “a ciência descobrir” pode significar uns quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes. Como proceder?”
Com Pondé, concorda João Pereira Coutinho. Colunista do mesmo jornal, ele também aponta traços totalitários na lei (inclusive o fato de ser apoiada pela maioria - posto que "extremismos políticos só sobrevivem em sociedades cúmplices") em nome da perfeição física. Toma como premissa que a idéia de "fumo passivo" é um mito e, portanto, um dogma. Mas diz duas coisas que acrescentam à essa discussão. Primeira: "Mas o melhor da lei vem no policiamento. Imitando as piores práticas das sociedades fechadas, a lei promove a delação como forma de convivência social. Por telefone ou pela internet, cada cidadão é convidado a ser um vigilante do vizinho, denunciando comportamentos 'desviantes'." Segunda (ele compara a lei antifumo com o antissemitismo de 1933, já que limita a liberdade individual a um nível comparável ao do cerco aos judeus): "A lei antifumo cumpre esse propósito. Proibir o fumo em lugares fechados, como bares ou restaurantes, é um ataque à propriedade privada e à liberdade de cada proprietário decidir que tipo de clientes deseja acolher no seu espaço. O mesmo raciocínio aplica-se aos clientes, impedidos de decidir livremente onde desejam ser acolhidos."
Volto a Pondé: “o que humaniza o ser humano é um equilíbrio sutil entre vícios e virtudes. E, quando estamos diante de neopuritanos, de santos sem Deus, os vícios é que nos salvam. Não quero viver num mundo sem vícios. E quero vivê-lo tomando vinho, vendo o rosto de uma mulher linda e bêbada em meio à fumaça num bistrô.”
A fumaça, ao mesmo tempo que borra os limites entre as pessoas (porque, fisicamente, nos cobre de neblina e, no imaginário, nos envolve num mesmo manto debaixo do qual todo mundo fica mais à vontade para trocar confidências), marca a nossa diferença. Pelo incômodo, reconheço a alteridade – apesar de muitas afinidades e do afeto, temos diferenças imprescindíveis para que haja troca e o cigarro explicíta isso já que eu, não-fumante, preciso adentrar o embaçamento e eles, fumantes, emergir da névoa.
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Ao caipira morador antigo da Av. São João, eu perguntei:
- É aqui a Av. São João?
- Olha, é possível que sim...
Sem uma nesga de ironia, ele ousa não saber em meio a tantas buzinas taxativas. A esse apalpamento humilde do real que nunca o reduz à obviedade eu dei o nome de respeito, mas talvez haja outro melhor...
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Todos os ovinhos de chiclete de uma só vez na boca. Sete mastigadas - o suficiente para juntá-los numa massa grande. As casquinhas, ainda não dissolvidas, espalhadas no bolo multicolorido. Os sabores descendo intensos, como mel, pela garganta. Todos os dentes ocupados na maceração. Sete mastigadas e eu pegava cuidadosamente o composto heterogêneo para grudá-lo sob o criado-mudo do quarto. Então, a boca vazia curtia saudade de preenchimento. Mucosa em prantos. No dia seguinte, eu voltava ao criado-mudo. Dessa vez, para descolar com a unha a nebulosa já seca e dura da superfície de madeira (processo que levava tempo suficiente para reencharcar os dentes, os lábios, a língua). Recolocava na boca. Umedecia a pasta até que ela amolecesse completamente e então: sete mastigadas. Persistia nessa atividade rigorosamente lúdica durante dias, até que o chiclete se homogeneizasse e perdesse completamente o gosto e a maciez - que podia ser nunca, eu acreditava, dependendo da qualidade dele e da minha contenção. Consumo lento dos sabores e texturas, cultivo do desejo, interrompido sempre em seu ápice, de modo a garantir mais uma lambida de satisfação no dia seguinte. E no seguinte... e no seguinte... e no seguinte... Minha infância foi toda permeada por essa experiência com a goma de mascar. Os reencontros eram sempre precedidos de assepsia bucal, para evitar contaminação por eventuais restos de alimento. Cada interrupção era um ato de sacrifício que, depois, convertia-se em prazer. Prazer fugaz para que fosse duradouro. E surpreendente. Era sempre surpreendente, pois eu nunca sabia qual seria o último dia, quando o chiclete sairia da minha boca para o lixo.
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A Nikolai Gógol - pela inspiração (em todos os sentidos)
O milésimo espirro foi tão forte que seu nariz voou longe. Não houve sangue. O nariz era, desde sempre, um adendo de seu rosto, uma parte grudada depois, como se com velcro.
Naquele dia de outono empoeirado, acordara com as narinas em fúria, desmanchando-se num sapateado de coceiras, fungadas, espirros. Era um caminho sem volta. O sapateado alcançaria um ápice avermelhado e frenético, que nenhum lenço é capaz de conter, de soltar faíscas gosmentas enquanto as mãos tentam, lerdas, enxugar as fossas, acalmar tamanho descontrole.
Não era um nariz. Era um bebê faminto no meio da cara-berço.
Quando ele foi arremessado longe, mais precisamente para trás da escrivaninha, primeiro veio o assombro. Um silêncio invernal conteve a queda das folhas no jardim que, por um instante, detiveram-se suspensas no ar. O rosto estava estranhamente em paz com a mutilação da tormenta. Como quando se solta um animal enjaulado para a liberdade - a princípio, ele se enraivece como nunca, mas, depois que ele some, correndo, do campo de visão: calmaria.
Ainda respirava. Sem o funil peludo das narinas, não havia censura. Para o pulmão iam, sem baldeação, todas as impurezas do ar. Mas nada mais o fazia espirrar. Alívio incomparável de remar por águas tranqüilas nunca d’antes navegadas. Não havia nem o lodo da mucosa para atolar o barco.
Deitou-se na cama para aproveitar aquele pequeno pires de sossego respiratório antes de começar a busca pelo pedaço de inferno que era parte integrante de sua personalidade e que, portanto, teria de, infelizmente, ser reemendado. Lembrou-se da interpretação dada por sua analista ao ouvir um sonho com temática própria para otorrino: “nariz é metáfora de destino, é como uma seta.” e pensou “agora sim, pelo menos temporariamente, sou um homem livre. Não tenho mais um destino adunco ou arrebitado ou de batata ou achatado para seguir. Meu destino não é mais irritadiço! Sou um indivíduo plácido, capaz de observar as folhas despedindo-se dos galhos, o padeiro bater as mãos cheias de farinha no avental, o motorista de taxi acender um cigarro, a irmã aplicar desodorante aerosol e a faxineira sacudir o tapete sem terror.” E decidiu ficar uns dias sem nariz. Já ia saindo de casa saltitante - aquilo era a felicidade, afinal! -, mas não achou prudente largar um pedaço do corpo no canto escuro atrás da escrivaninha. E se aranhas, baratas ou quaisquer outros insetos o devorassem, atraídos pelas melecas? E se confundissem as caquinhas endurecidas com migalhas de pão, queijo... era melhor guardar numa caixinha e garantir sua integridade. Fez isso e retomou o caminho da rua, empolgado para ressignificar todo o mundo a partir de um ponto de vista não mais apoiado sobre o vulcão. Tinha um vazio no rosto ansioso por ser preenchido pelos mais variados tipos de odor. Queria fumaças, gotículas, perfumes, pó em grande quantidade. Queria submeter o nariz, ou melhor, a ausência dele, a experiências que, até então, na sua existência alérgica, tinham sido apavorantes.
Então, diante do pet shop estopim de incontáveis crises que o levaram à beira da morte, determinou-se a entrar. Pediu à balconista (obviamente assustada com o rapaz desprovido de extremidade frontal) para enfiar o orifício no poodle que estava no secador:
- Quero enterraaaaaaar essa cratera aqui nesse cããão!!! – ele gritou como se estivesse bêbado, tamanha era a sua alegria por conseguir ficar mais de 2 segundos no interior de um pet shop sem transfigurar-se nasalmente num pit-bull.
A balconista, pasma, não negou o pedido. Afinal, aquela situação era tão inédita que não queria presenciar a reação do sujeito diante de uma negativa.
Ele grudou o nariz no poodle e nada de espirro. Esfregou a cara inteira no corpo do bicho e nenhuma coceirinha o incomodou.
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!!!! – ele saiu correndo da loja com os braços levantados. Tinha ganhado na loteria – Nunca mais quero nariz! Nun-ca mais que-ro nariz! Nun-ca mais! Nun-ca mais! – desenvolveu uma musiquinha acompanhada de uma dancinha para comemorar a nova vida.
Em seguida, engajou-se na luta para que “Todos os riníticos desse mundo libertem-se de seus narizes problemáticos. Arranquem! Cortem! Vias respiratórias sem fiscalização são a solução!”
Mas, aos poucos, deu-se conta de que, na verdade, ele não sentia odor nenhum. Apenas não tinha mais reações alérgicas aos componentes aéreos da Terra. Com o nariz, poucas vezes sentia cheiros, é verdade, pois, na maior parte do tempo, estava entupido ou tão preocupado em comportar a enxurrada que não podia deliciar-se ou horrorizar-se com os estímulos. Mas, como o nariz era o único canal que tinha para saborear a dimensão cheirosa da vida, tomou a difícil decisão de reintegrá-lo à face.
Chegou em casa cabisbaixo... não havia escolha. Sentia saudade de ser tocado pelo mundo impalpável e invisível – ainda que de maneira pouco amistosa. Desembrulhou o nariz e recolocou-o no lugar. Inspirou profundamente e logo veio a erupção. Não tinha jeito... aquele nariz rabugento era ele. E quer saber? Depois dessas férias silenciosas, não era mais sincero chamar o próprio nariz de rabugento. Era só um nariz sensível, que precisava de atenção. A falta que sentiu de si mesmo nesse período de exílio de seu próprio Monte Fuji o fez incorporar no nome o nariz. Ele passou a ser chamado de Narizé. E atchim passou atchim a vida atchim espirrando atchim feliz atchim e vendo atchim o mundo atchim entrecortado.
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O feijão ainda nem tinha ido para o fogo. O alho e a cebola estavam quase dourados o suficiente quando o gás acabou. Julieta nunca tinha trocado o botijão e ficava rezando sempre que Oscar descia para fazer a troca. Ai, Oscar, peloamordedeus, não esquece de passar a buchinha depois... já pensou se vaza? Mas ela estava sozinha. Oscar já morava em outra cidade, com outra família. Era feijão para um só. E o gás acabou.
Julieta não pensava em Oscar fazia tempo. Até desejava, sinceramente, a felicidade plena dele fosse com quem fosse. Não importava que não formavam mais um casal - o amor é sublime e etéreo. Como água que evapora e se desloca no ar, não precisando mais ficar aprisionada ao chão, o amor de seu peito havia se dissipado, atingindo um estado invisível, impalpável, mas capaz de virar chuva. Só que ela não sabia que podia virar chuva. Podia virar tempestade... e a luz piscante do farol que a guiaria até a praia apagara.
- Não há nada mais triste, Julieta, do que cortar pela metade a quantidade de feijão.
- Há, sim.
Acontece que ela só percebeu a tristeza disso naquela tarde. Até então, tudo estava muito bem. Estava. Constatação triste atrasada vem em dobro e ocupa a metade do feijão que ia para o fogo e talvez mais um pouco.
O feijão nem foi para o fogo... paramos no alho e na cebola que sequer foram completamente refogados. Era tão o começo da receita que Julieta... Julieta pôs o coração na panela. Mas não havia gás... ela consumiu-o cru. Sozinha.
A saudade que sentia da presença de Oscar era sem fundo, um buraco negro no meio do fogão tragando tudo e ela não tinha visto.
- Acho que, enquanto tinha gás, o fogo escondia.
- Pois é.
O fato é que as bocas, secas, faiscavam Oscar. E incendiavam Julieta, que queria mais que tudo ouvi-lo dizer – Bonita,.
O vocativo santo que era lareira no inverno, mangueira no verão, guarda-chuva. Vocativo que mantinha tudo sempre morno não importava o que acontecesse: - Bonita, vem!
Podia ficar surda, mas precisava ouvir uma vez mais: - Bonita, vem! Bonita, vai! Bonita, quer? Bonita, pára! Bonita, tudo bem? Bonita, meu bem... em qualquer circunstância, entonação, vinha sempre acompanhado de um conforto inteiriço, inigualável. Lã nobre, cuidadosamente entrelaçada, que embalava os dois com a frouxidão necessária para que houvesse ar alimentando o fogo entre eles.
E o gás acabou. Choveu.
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O Livro do Desassossego, definitivamente, arrebatou-me. Frito o dia todo no óleo das desconexões de Bernardo Soares, um ajudante de guarda-livros que mora na Rua dos Douradores, e decidi citar alguns trechos aleatórios aqui pelo seguinte motivo, que ele mesmo explica:
259.
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. (...)
12.
(...) Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.
252.
(...) Não querer compreender, não analisar... Ver-se como à natureza; olhar para as suas impressões como para um campo - a sabedoria é isto.
23.
(...) O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as pacientemente e honestamente, só para depois agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
10.
E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entonações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. (...)
26.
Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma. (...)
27.
A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira. (...)
257.
O pensamento pode ter elevação sem ter elegância, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a acção sobre os outros. A força sem a destreza é uma simples massa.
260.
A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. (...)
42.
(...) assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
123.
A renúncia é libertação. Não querer é poder.
Que me pode dar a China que a minha alma não me tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir em busca da riqueza ao Oriente, mas não da riqueza de alma, porque a riqueza de alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.
Compreendo que viaje quem é capaz de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação de quem os escreve. E se quem escreve tem imaginação, tanto nos pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição, forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver. Somos todos míopes, excepto para dentro. Só o sonho vê com olhar.
(...)
No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas só - o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana
(...)
Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.
21.
Haja ou não haja deuses, deles somos servos.
Faço aniversário na segunda-feira. Proponho uma troca de trechos inspiradores de qualquer coisa.... em troca, dou mais passagens imperdíveis do semi-heterônimo de Fernando Pessoa que tenho namorado ultimamente. Que tal?
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Há algum tempo moro na região entre o Bixiga e a Liberdade. Spaghetti no almoço, sushi no jantar. Saquê num dia, vinho no outro. Palavrone one mamma mia num quarto, tchan tchan gozai mas na sala. Contenção e espalhafato no meu sentimento. Abundância e grão de gohan numa única gaveta de caixinha de música. Ali, entre o Bixiga e a Liberdade, eu, atrás de um mandacaru piauiense, espio cada coisa com o corpo todo perplexo - a língua tomada de wassabi e os ouvidos de tarantella: o encontro é mesmo um mistério.
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Mariana amou Abel.
Abel amou Mariana.
!!!
Três dias de festa
E então?
...
Envelheceram três anos em linha reta.
Um dia:
Ele, arquiteto, desenhando uma torre para a praça no escritório. Ela, atrás dele, retirando suas caspas cuidadosamente, juntando-as alinhadas numa taça - cheirava os dedos para experimentar o odor daquela dedicação tão completa.
Viviam em fila indiana.
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Eu disse que os livros caem nas minhas mãos para preparar. Mas, ultimamente, eles têm andado no mesmo passo que eu. Comecei a dançar a mesma música que eles, ou eles a mesma que eu. Não estamos mais com uma faixa de diferença. Percebi isso num susto. Fernando Pessoa disse o seguinte, na minha cama, antes de eu dormir, pela boca de Bernardo Soares:
“A fadiga de ser amado, de ser amado deveras! A fadiga de sermos o objecto do fardo das emoções alheias! Converter quem quisera ver-se livre, sempre livre, no moço de fretes da responsabilidade de corresponder, da decência de se não afastar, para que se não suponha que se é príncipe nas emoções e se renega o máximo que uma alma humana pode dar. A fadiga [de] se nos tornar a existência uma coisa dependente em absoluto de uma relação com um sentimento de outrem! A fadiga de, em todo o caso, ter forçosamente que sentir, ter forçosamente, ainda que sem reciprocidade, que amar um pouco também!” E continua: “Sobre as emoções tenho curiosidade. Sobre os factos, quaisquer que venham a ser, não tenho curiosidade alguma.” E mais (e mais!):A renúncia é libertação. Não querer é poder.” Agradeci a Fernando Pessoa por mudar o meu ponto de vista e dormi o sono dos compreendidos.
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Astuta
Borboleta
Coralina
Amarga
Beirada
Contrária
De Astuta Amarga quase que não sobrou nada.
Borboleta Beirada era amante de Adeus.
E Coralina Contrária, Emudeceu, sou eu.
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Eu tricoto
ele
corta.
Eu tricoto
ele
parte.
Eu desfaço.
Ele volta.
Fica.
Pede para eu tricotar.
Eu tricoto.
Ele
vai.
Eu fico.
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Tenho um coração devorador e um estômago fraco.
Quando o coração se empapuça com tempero forte,
o estômago faz greve. A boca obedece. Estresse.
A pele mergulhando em direção aos ossos,
o corpo inteiro digerindo o que o coração engoliu sem mastigar direito.
Tudo sobrecarregado. Sem espaço para um copo d’água.
Vou minguando. O pensamento obeso. O coração enjoado.
Tempo lesma. . . áspero.
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